Zarathustra é
o além do homem (Übermensch), pois ele viu muitas coisas, sofreu muito, amou,
odiou, foi guerreiro, experimentou a morte, comemorou a vida. Em seu caminho
cheio de pedras, ele superou a si mesmo. Em sua Odisséia, ele superou muitos
monstros, muitos dragões até tornar-se ele mesmo, até tornar-se Zarathustra. O
que Zarathustra nos ensina é tornar-se “si mesmo”. Essa é sua principal
sabedoria. É isso que devemos aprender com ele, devemos aprender a ser nós
mesmos. Não devemos seguir ninguém, não devemos seguir ídolos, nem mesmo a
Zarathustra. Ele nos exorta a comer muito sal, a aprender com a pedra, que ela
é dura, a saber que na dor há esperança e que o destino somos nós que fazemos.
Quem nunca sentiu dor não sabe o que é a vida. Todos nós temos Zarathustra
dentro do coração, mas também temos um dragão que impera com suas regras e
normas. Para fazer surgir uma estrela que dance devemos quebrar muitas tábuas
de leis. Quem quiser nadar que entre na água. Quem quer, mas não age, apenas
deseja e sofre.
Foi muito
difícil a Zarathustra tornar-se si mesmo, foi preciso muita coragem, foi
preciso engolir muito sal. Ele soube reconhecer seu destino. Ele soube viver
sua vida. A maior parte dos homens não vive sua vida, não cumpre seu destino.
Temos que aprender a coisa mais difícil desse mundo: aprender a viver. Viver é
saber qual é o nosso destino. O destino não pode ser imposto de fora, ele deve
ser puro como o mais fino brilhante, ele vem de dentro de nossos corações,
devemos identificá-lo. Quem reconheceu seu destino quer cumpri-lo. Quem deseja
amar, que ame. Quem deseja a liberdade, que se liberte.
No destino há
dor, mas também há esperança. É na dor que aprendemos qual é o nosso destino. A
dor nos ensina a viver. Devemos respeitá-la e amá-la como algo necessário.
Muitos indivíduos não respeitam sua dor, não aprendem nada com ela. Estão
sempre se lamentando e maldizendo a vida. Muitos nem ao menos sabem por que
sofrem. Acham que a dor é causada pela falta de dinheiro, falta de amor, falta
de emprego. Se tentassem entender a dor, tudo seria mais fácil. Perceberiam que
ela não é causada pelo mundo, mas é uma dor pessoal causada pela insatisfação,
causada pelo desejo de viver, causada pelo desejo de liberdade. Não percebem
que é seu destino que reclama dentro de seus corações. Os homens sufocam seu
destino e é na dor que o destino grita por socorro. É o destino em nossos
corações que reclama à vida
Zarathustra
nos ensina que falta obstinação ao homem. Falta personalidade. Temos que viver
conforme o nosso coração. A verdade está em nós mesmos. Não devemos seguir o
rebanho. Temos que deixar de ser gregários. Temos que adquirir perspectivas
pessoais. Temos que ser frios e corajosos. Tudo que existe possui um destino. O
destino do pássaro é voar. O destino do peixe é nadar. O destino do homem é
realizar seu sentido interno. Temos que descobrir o nosso sentido interno, a
nossa natureza. Só assim nos tornamos um espírito livre. Temos que voltar a
sermos crianças, pois “a criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar,
um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação”
(Nietzsche, 2004, p.36) A criança é um espírito livre. Ela segue seu sentido
interno. Ela é pura espontaneidade, necessidade, liberdade, não sente culpa,
não tem malicia, é inocência e sua vida consiste em brincar. Já o adulto é
consciente de seus atos, sabe que para viver em sociedade deve abandonar uma
grande parte de seus sonhos e desejos, pois deve se adaptar as exigência da
vida social. O homem civilizado vive uma vida inautêntica. É um ser não-livre,
moral, que sente culpa e remorso pelos seus atos.
Para Zarathustra
o destino do homem é crescer enquanto indivíduo. O sentido interno do homem
está ligado a sua vontade de potência, a sua vontade de crescimento. O que
importa é a nossa força interna, a força vital. O importante é cumprir o nosso
destino individual. Enquanto seres gregários não temos individualidade. A
individualidade é algo que temos que adquirir através do nosso destino pessoal.
Temos que viver autenticamente a vida. Temos que ser nós mesmos. O indivíduo só
se torna o que se é por suas próprias forças, ou seja, por sua vontade de
potência. “E onde há sacrifício, serviço e olhar de amor há também vontade de
ser senhor. Por caminhos secretos desliza o mais fraco até a fortaleza, e até
mesmo ao coração do mais poderoso, para roubar o poder. E a própria vida me
confiou este segredo. ‘Olha – disse – eu sou o que deve ser superior a si
mesmo’”.(Nietzsche, 2004,p.96-7)
O que Zaratustra
nos ensina é ser senhor de si mesmo, pois aquele que é senhor de si mesmo é
senhor do mundo.
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